BBB: o lado B da TV, o lado real da vida

André Forastieri

“Mulheres, peitos de fora, bacon, queijo, cerveja e sexo anal. Quer combinação mais explosiva?” É a chamada para um dos vídeos do site pornô-alternativo X-Plastic, onde trabalha a “arte-educadora” Mayara, lésbica, recém-escalada para a nova edição do Big Brother Brasil.

João, representante comercial, diz que gosta de homem e mulher. A paquidérmica “empresária” Fernanda também é lésbica, e namorada de uma participante de outro reality show. A representante comercial Kelly ganhava a vida dançando seminua no Aviões do Forró. A “estudante de medicina” Raisa concorreu ao troféu de bumbum mais bonito da Playboy. O lutador de Muay Thai ganha a vida dando porrada. E por aí vai.

Há quem critique o BBB 2012 por não ter negros na escalação, ou por não ser representativo do Brasil. Nunca foi o objetivo do programa. Sua missão é dar dinheiro. Para isso tem que dar assunto. Faz isso melhor que qualquer outro reality show.

Assistir ou não o BBB é como ouvir ou não Michel Teló, ou questionar a eterna popularidade praiana de cerveja e picolé. Assuntar sua validade estética é discutir o sexo dos anjos. O BBB é um vendaval sazonal, como o El Niño. Sopra forte todo verão. Tentar fugir ou ignorar é fútil. Fenômenos existem para serem investigados, se você é mais para chato, ou curtidos acriticamente, como convida o clima de férias.

Por que o BBB repercute tanto? Porque o BBB é o lado B da televisão careta, que tem como maior representante a novela. Nas novelas todo mundo é ou do bem ou do mal, todo mundo é família, 80% são brancos e bonitos, os pobres não sofrem com a falta de grana, todo mundo é hetero e os poucos gays não beijam na boca.

No BBB, como no mundo real, a maioria das pessoas é ambígua e faz qualquer coisa por dinheiro, ou pela fama, que talvez preencha ainda melhor nosso vazio. Freud explica: somente a realização de desejos infantis sacia. Criancinha não entende dinheiro, donde dinheiro não traz felicidade. Mas chamar atenção, ah, isso qualquer nenê nas fraldas sabe muito bem.

No século 21, percepção é capital – mesmo que seja notoriedade. O BBB é O SISTEMA. O resto da TV é faz-de-conta. Iluminar nossas entranhas é o segredo explícito de seu sucesso. O merengue na torta é que as pessoas reunidas para o BBB não tem a menor condição de ganhar dinheiro usando o cérebro. São criaturas que faturam com apelo sexual.

O espectador não é só voyeur, mas voyeur sádico, porque o clímax é proibido durante meses, nem mesmo embaixo dos edredons, tortura no tórrido Rio de Janeiro.

Os brothers são animais. Vivem de seus corpos e instinto de sobrevivência, submetidos a provas idiotas e tarefas cansativas e inúteis – como você e eu. Diferente de nós, estão todos sob estrita direção. Cada um com seu personagem, que nunca conseguem seguir à risca, porque humanos e com os nervos expostos: o marrento, o caipira, a inocente, a barraqueira, a bicha de língua afiada.

É improvável o eterno reinado do programa, 12 anos já. Abundam similares, e programas como SuperPop compartilham do mesmo, digamos, ideário. Uma hora dessas aparece algo mais hipnotizante, provavelmente direto na web. É facílimo e baratésimo reproduzir BBB, mas é preciso dissecar o monstro para destilar seu veneno.

O BBB compartilha o mérito do Rock in Rio: alargar os horizontes morais-sexuais da família brasileira. O festival botou de Nina Hagen a Slipknot na sala de estar de vovós e criancinhas. Quanta inocente psique foi irremediavelmente estilhaçada por metaleiros satanistas, punks monstros, drogados, andróginos, malditos?

Quanta fé cega na família, no trabalho, na subserviência aos ditames sociais foi destroçada pela moralidade de bordel de BBB, tão dúbia, tão parecida com o mundo aí fora?

O BBB reina porque divide, e dá o que falar porque é real, a realidade espetacularizada – reality show.

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