Os Subterrâneos do Amor

PSICANÁLISE DA VIDA COTIDIANA

Os Subterrâneos do Amor

CARLOS VIEIRA
A relação amorosa continua sendo descrita pelos filósofos, poetas, antropólogos, psicanalistas, enfim por todos os pensadores da alma humana. Porque mistério? Por que a alma (psique) carrega dentro de si aspectos racionais, previsíveis e enigmáticos, inconscientes. A alma tem seu lastro biológico, mas evidencia também seu aspecto proteiforme da inconsciência.
Inspiro-me e faço uma espécie de improviso hoje, baseado na beleza do ensaio de Edgar Morin, “Amor Poesia Sabedoria”, publicado pela Editora Bertrand Brasil, 2011, Rio de Janeiro.
O amor é instintual, pulsional. O amor é expressão de vida, é um sentimento contido no Eu, que o perpassa e chega ao Outro, descrito por S. Freud, como amor genital, libido de objeto. Dito em outras palavras, o Amor tem uma base legítima, egocêntrica e também, com o crescimento, uma finalidade social, gregária. O amor nasce narcísico, individualista, voltado totalmente para a sobrevivência do Eu.
No início da vida estamos preocupados somente, com a satisfação dos nossos desejos e ainda não reconhecemos o outro ( a mãe ) como pessoa separada, e sim como extensão da nossa pessoa. Escreve E. Morin: ”O amor é algo único, como uma tapeçaria que é tecida com fios extremamente diversos, de origens diferentes. Por trás de um único e evidente “eu te amo”… em uma extremidade há um componente físico e, pela palavra físico, entende-se o componente biológico, que não se reduz ao componente sexual, mas inclui o engajamento do ser corporal. No outro extremo, encontram-se os componentes mitológico e imaginário; incluo-me entre aqueles para quem o mito e o imaginário não representam uma simples superestrutura, e muito menos uma ilusão, mas, sim, uma profunda realidade humana”.
Desse modo, a amorosidade assume uma textura biológica, onírica e psíquica. Nós, os humanos, somos seres – psicossomáticos. A criancinha de colo já mostra sua ânsia, sua necessidade física, e seu apelo amoroso, traduzido por uma “voracidade” que suga o seio em busca de alimento físico e apelo amoroso. Continua Morin em seu Ensaio: “ O amor enraíza-se em nossa corporeidade e, nesse sentido, pode-se dizer que o amor precede a palavra. Mas o amor encontra-se, ao mesmo tempo, enraizado em nosso ser mental, em nosso mito, que evidentemente, pressupõe a linguagem, e nesse sentido, pode-se dizer que o amor decorre da linguagem. O amor, simultaneamente, procede da palavra e precede a palavra.
Amamos com o corpo, com os olhos, com os gestos e com todo o nosso aparelho de comunicação pré-verbal. Amamos com a declaração verbal do “eu te amo” assim como, com o canto poético do nosso ser romântico.
Acontece que, aquele amor inicial, carnal, misturado, sem admitir separação, necessário no inicio da vida, caso não evolua, vai marcar as “paixões desvairadas, loucas”, irracionais e sem nenhum sentido de separação entre o eu e o outro. Aí o amor toma o rumo da insanidade, da fusão, do grude, do controle sobre o outro e da morte do sentimento amoroso.
Assassinatos, suicídios, aprisionamento da outra pessoa, relações sádicas e perversas são, desse modo, a expressão louca, do amor que nomeio como “amor de carcará”: pega, mata e come. A natureza humana definida pelo nosso autor acima, como “homo sapiens” e “homo demens”, de “diabo” transforma-se em pura loucura sem o mínimo de racionalidade, onde o desejo se transforma em posse. È dessa forma de amor, tão frequente na atualidade, que devemos cuidar, para que o “individualismo” da sociedade pós-moderna não destrua totalmente nossa capacidade de amar no sentido social e grupal.
É notório assistir hoje, aos ataques vorazes, gulosos das pessoas, dos grupos societários, políticos, empresariais e governamentais em direção, não a uma relação e compromisso amorosos, mas a uma exploração para satisfazer o egoísmo mortífero e os prazeres materiais, usando o “blefe” da preocupação pelo outro. Esse é o próprio “Amor de Carcará”.
No ensaio de Edgar Morin, apreendemos sua mensagem: “Se a bipolaridade do amor pode aquartelar o individuo entre o amor sublime e o desejo infame, pode também efetivar-se no diálogo, em comunicação: há momentos muito felizes, momentos em que a plenitude do corpo e da alma se encontram”. Que linguagem longe dos dias atuais, caro leitor! A posse, o ciúme patológico, o uso do outro como “droga” para o prazer, no plano individual; as falcatruas de grupos políticos, o assédio de assaltos ao nosso dinheiro dos impostos, as benfeitorias ilusórias de alguns governos, isso no plano social, criam dificuldades reais aos ideais de Morin e de todos nós. Estamos no caos? Estamos no fim de uma sociedade, dita civilizada? Quais as alternativas para o presente e futuro da humanidade?
A biosfera nunca esteve tão ameaçada de uma catástrofe significativa, ainda que os movimentos em favor do equilíbrio ecológico estejam se esforçando para evitar tal desastre; o animal-humano nunca matou tanto seus semelhantes quanto no presente; a ciência tecnocrata e a economia não nos assegura a paz; os governos, ditos democratas nunca lesaram o dinheiro dos nossos impostos quanto agora; as religiões fundamentalistas nunca “venderam” tantas ilusões. Estamos em crise patológica da família, da educação, da fé, da ética e da justiça. Entretanto acredito: ainda o Amor é a saída para nossa pátria – a Terra. Após a leitura de Morin, nossa pátria é a Terra.
Termino com mais uma citação dele:”…se o mal que sofremos e fazemos sofrer reside na incompreensão do outro, na autojustificação, na mentira a si próprio(self deception), então o caminho da ética – e é aí que introduzirei a sabedoria – reside no esforço da compreensão e não na condenação, no auto exame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio.

Carlos.A.Vieira, médico, psicanalista, Membro Efetivo da Sociedade de Psicanálise de Brasilia e de Recife. Membro da FEBRAPSI e da I.P.A – London.

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