Casos inacabados

Mais uma coluna perfeita do Ivan Martins.

Casos inacabados

Algumas pessoas ocupam dentro de nós um espaço emocional inconfessável

IVAN MARTINS

Tem gente que vai ficando na nossa vida. A gente conhece, se envolve, termina, mas não coloca um ponto final. De alguma forma a coisa segue. Às vezes, na forma de um saudosismo cheio de desejo, uma intimidade que fica a milímetros de virar sexo. Em outras, como sexo mesmo, refeição completa que mata a fome mas não satisfaz, e ainda pode causar dor de barriga. Eu chamo isso de caso inacabado.

Minha impressão é que todo mundo tem ou teve alguma coisa assim na vida. Talvez seja inevitável, uma vez que nem todas as relações terminam com o total esgotamento emocional. Na maior parte das vezes, temos dúvida, temos afeto, temos tesão, mas as coisas, ainda assim, acabam. Porque o outro não quer. Porque os santos não batem. Porque uma terceira pessoa aparece e tumultua tudo. Mas o encerramento do namoro (ou equivalente) não elimina os sentimentos. Eles continuam lá, e podem se tornar um caso inacabado.

Isso às vezes acontece por fraqueza ou comodismo. Você sabe que não está mais apaixonado, mas a pessoa está lá, dando sopa, e você está carente… Fica fácil telefonar e fazer um reatamento provisório. Se os dois estiverem na mesma vibração – ou seja, desapaixonados – menos mal. Mas em geral não é isso.

Quase sempre nesse tipo de arranjo tem alguém apaixonado (ou pelo menos, dedicado) e outro alguém que está menos aí. A relação fica desigual. De um lado, há uma pessoa cheia de esperança no presente. Do outro, alguém com o corpo aqui, mas a cabeça no futuro, esperando, espiando, a fim de algo melhor.

Claro, não é preciso ser psicólogo para perceber que mesmo nesses arranjos desequilibrados a pessoa que não ama também está enredada. De alguma forma ela não consegue sair. Pode ser que apenas um dos dois faça gestos apaixonados e se mostre vulnerável, mas continua havendo dois na relação. Talvez a pessoa mais frágil seja, afinal, a mais forte nesse tipo de caso. Pelo menos ela sabe o que está fazendo ali.

A minha observação sugere, porém, que boa parte dos casos inacabados não contém sexo. A pessoa sai da sua cama, sai até da sua vida, mas continua ocupando um espaço na sua cabeça. Você pode apenas sonhar com ela, pode falar por telefone uma vez por mês ou trocar emails todos os dias. De alguma forma, a história não acabou. A castidade existe, mas ela é apenas aparente. Na vida emocional, dentro de nós, a pessoa ainda ocupa um espaço erótico e afetivo inconfessável.

Esse tipo de caso inacabado é horrível. Ele atrapalha a evolução da vida. Com uma pendência dessas, a gente não avança. Você encontra gente legal, mas não se vincula porque sua cabeça está presa lá atrás. Ou você se envolve, mas esconde do novo amor uma área secreta na qual só cabem você e o caso inacabado. A coisa vira uma traição subjetiva. Não tem sexo, não tem aperto de mãos no escuro, mas tem uma intimidade tão densa que exclui o outro – e emocionalmente pode ser mais séria que uma trepada. Ainda que seja mera fantasia.

A rigor, a gente pode entrar numa dessas com gente que nunca namorou. Basta às vezes o convívio, uma transa, meia transa, e lá está você, fisgado por alguém com quem nunca dormiu – mas de quem, subjetivamente, não consegue se esquivar. Telefona, cerca, convida. Estabelece com a pessoa uma relação que gira em torno do desejo insatisfeito, do afeto não retribuído. Vira um caso inacabado que nunca teve início, mas que, nem por isso, chega ao fim. Um saco.

Se tudo isso parece muito sério, relaxe. Há outro tipo de caso inacabado que não dói. São aquelas pessoas de quem você vai gostar a vida toda, cuja simples visão é capaz de causar felicidade. Elas existem. Você não vai largar a mulher que ama para correr atrás de uma figura dessas, mas, cada vez que ela aparecer, vai causar em você uma insurgência incontrolável de ternura, de saudades, de carinho. O desejo, que já foi imenso, envelheceu num barril de carvalho e virou outra coisa, meio budista. Você olha, você lembra, você poderia querer – mas já não quer. Você fica feliz por ela, e esse sentimento é uma delícia.

Para encerrar, uma observação: o alcance e a duração dos casos inacabados dependem do momento da vida. Se você está solto por aí, vira presa fácil desse tipo de envolvimento. Acontece muito quando a gente é jovem, também se repete quando a gente é mais velho e está desvinculado. Mas um grande amor, em qualquer idade, tende a por as coisas no lugar. Uma relação intensa, duradoura, faz com que a gente coloque em perspectiva esses enroscos. Eles não são para a vida inteira, eles não determinam a nossa vida. Quem faz diferença é quem nos aceita e quem nós recebemos em nossa vida. O que faz diferença é o que fica. O resto passa, que nem um porre feliz ou uma ressaca dolorosa.

(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

Fonte : Revista Época

Segredos

Carrego vários segredos que tomam boa parte dos meus pensamentos e preocupações. Dois são fontes de tristeza e o outro que é minha maior alegria.

É muito difícil esconder das pessoas um segredo que nem é seu, mas que prometeu não falar para ninguém. É difícil ver quem você gosta, sofrendo e não poder fazer nada. Choro escondida mas nada posso fazer.

Tem um que guardo que seu revelar pode me dar problemas. Esse também é difícil, porque me me deixa bem cabisbaixa, com medo do futuro e de como vai ser minha vida quando isso vier à tona, quando as pessoas souberem que sei de algo desta importância e que me calei. Como sei que que este não será escondido por tanto tempo, vivo sem pensar quando tudo for revelado. Só sei que ficarei mas leve de não carregar mais este peso comigo.

Meu SEGREDO mais FELIZ prometi que ñ contaria, mas senão tivesse prometido gritaria aos quatro ventos. Como é uma coisa boa, acabo não tendo cuidado de conservar. Tento me segurar, já falei para os muito íntimos, mas acabei dando um mole e mais uma pessoa está desconfiada. Amanhã, esta pessoa vai tentar descobrir e claro que estou preocupada pois não tem como negar. Sei que preservar isso, vai ser bom para o meu futuro, mas está cada vez mais difícil. Fora que prometi, né?

Divagações

Como já tinha repetido exaustivamente por aqui, encerrei um ciclo em que me dediquei ao hedonismo. Um período ótimo, mas que não faz mais sentido para mim. Viver o hoje como se fosse o último dia da sua existência é delicioso. Dá um sentido danado na vida, mas não constrói um futuro.

Mesmo sendo muito mais chato, estou investindo na minha carreira. É uma das poucas  coisas nessa vida que depende unicamente de mim. Às vezes temos sorte, ou nos associamos com pessoas que nos ajudam nesta escalada profissional. Mas no fim das contas, todo esforço para adquirir novos conhecimentos é feito de forma solitária.

Junto a esta vontade, várias mudanças vem ocorrendo na empresa que trabalho. Nada mudou na minha condição de jornalista, mas já tive três chefes em três meses. Não tenho conseguido manter otimismo, nem tenho motivos para isso, mas é estressante tantas trocas, tantas incertezas.

O que me motiva é meu objetivo de melhorar profissionalmente para comprar um imóvel, viver com conforto, mas com simplicidade. Quem sabe comprar um carro e manter um padrão na classe média. Ter dinheiro para viajar nas férias.

Mas escrevendo isso, nem parece que quero isso. Só estou escolhendo a alternativa que não depende de ninguém, a não ser de mim mesma. Não é a vida mais feliz, mas garante um futuro mais ou menos. Sem grandes surpresas, tudo seguindo um script, como se a vida não surpreendesse a gente.

Parece que tenho outra escolha, mas não consigo vislumbrar. Será que falta ambição para batalhar para um futuro mais feliz? Ou só estou realista demais. Como muitas mulheres na minha faixa etária, queria ter um amor, construir uma família e ter filhos. Não sei se é a vida mais feliz, mas é o que desejo para meu futuro. Mas todo plano que depende de outra pessoa que não seja eu mesma, me desanima. Pois posso me apaixonar perdidamente por alguém e não ter ao lado quem queira seguir este sonho comigo.

Então sigo um plano só, pois tenho esperanças que apareça alguém que tenha o mesmo objetivo de formar uma família comigo, e o planejamento inicial pode ser adaptável para esta mudança. Mas fico sempre na dúvida, se devo perder completamente as esperanças e seguir um planejamento mais grandioso que não cabe ninguém, a não ser eu mesma. Pois sofro com a possibilidade de um futuro sozinha.

Acredita em oráculos?

Anteontem fui numa cartomante. Esta é a segunda vez que vou nela. Na primeira vez detestei. Ela disse coisas que eu não queria saber e que um projeto de vida iria fracassar. Saí ñ acreditando em nada e achei que ela errou tudo.

Mas ela acertou o futuro. Aquele futuro que pareceu irreal.

Briguei muito comigo, pois não queria dar o braço a torcer, que tudo saiu como ela tinha falado. E o que era improvável ocorreu, ganhei um diamante. Mas como nada vem redondo, ele precisa passar por muitos processos de lapidação.

É como recebesse de herança um grande terreno cheio de mato e posso construir um Jardim Botânico. Mas para isso, preciso investir, resolver a papelada para regularizar o terreno, comunicar aos órgãos competentes e trabalhar muito.

Não tenho garantia real que aquela terra é produtiva, só tenho promessas dos oráculos. Só o desgaste do grande trabalho me desanima, pois vem com um grande risco envolvido, a chance de dar errado.