A princesa que era alta demais

Era uma princesa bonita, inteligente e dona de muitos talentos. Ela era tão inteligente que era capaz de calcular todo o tesouro real usando apenas um ábaco, ela também era capaz de dominar qualquer assunto que lhe fosse apresentado pelos tutores reais.

Além desta inteligência, ela também tinha inclinações artísticas: tocava cítara com facilidade e criava finas tapeçarias. Ah! E, além disso, tudo, ela era muito alta.

A única coisa que faltava a esta princesa era o amor, pois não havia no reino um único homem que tivesse a sua altura. Mas a princesa, tinha um grande amigo: um cão. Era um Afghan de pelos claros e feições finas e aristocráticas, que havia sido presente de um amigo seu, um mago. O cão fazia companhia a ela todo o tempo, andava pelos campos durante o dia, e a noite, dormia ao pé de sua cama. Mas a princesa era a primeira a admitir: “afinal de contas um cão é um cão, e não um príncipe”. E ela queria mesmo casar!

Um dia, um príncipe de um reino vizinho é enviado por seus pais para propor casamento à princesa, mas na realidade o que seus pais queriam mesmo era a aliança política: juntar terra e exércitos. Mas a princesa achou aquilo tão bom, e organizou uma festa de noivado. E quase desmaiou em sua cadeira, quando viu pela primeira vez o príncipe. Ah! Ela achou que ele era tão atraente, elegante, muito mais bonito do que ela jamais conseguira sonhar. Ela ficou tão encantada com ele, que passou a festa inteira de mãos dadas por debaixo da mesa do banquete.

Quando terminou o jantar, chegou a hora de dançar. E os trovadores reais pegaram seus instrumentos e começaram a tocar uma valsa. O príncipe se levanta, pede à princesa a honra de lhe conceder a primeira dança e ela se levanta para aceitar o convite.

Ah! Mas no momento que ela fica de pé, o rosto do príncipe se fecha. Ele olha fixamente para ela. E ela pergunta:

_ O que foi? _ Ele não diz nada. Vira as costas e sai imediatamente do salão.

Durante um longo tempo, a princesa ficou parada no mesmo lugar, tentando descobrir o que havia desagradado tanto o príncipe. Depois, quando ela vê que ele não volta vai para o seu quarto e muito triste, olha para o seu cão:

_ Ah! Se você pudesse conversar comigo, você poderia me dizer: O que será que aconteceu com aquele príncipe? O que eu fiz de errado?

Mas só que o cão de verdade podia falar, é que ninguém nunca antes havia perguntado a ele sobre nada.

Então ele responde:

_ Você não fez nada _ disse ele _ é só a sua altura!

_ Minha altura !? _ exclama a princesa muito, muito espantada _ O que tem a minha altura? Eu sou uma princesa. Eu devo ser alta. E depois disto, todos os membros da família real são altos, como eu. Mas o cão, com paciência, lhe explica que, apesar de isso ser verdade, os homens dos outros reinos gostam muito de ser mais altos que suas esposas.

_ Ué? Mas por quê?_ pergunta princesa. O cão tenta encontrar uma boa resposta, mas ele não consegue.

Aquela história para ele também não faz nenhum sentido. Enquanto isto, o príncipe está muito aborrecido em seu reino. Ele não consegue tolerar a idéia de ter uma esposa mais alta do que ele, ele pensa que uma esposa mais alta também será mais poderosa. E ele não consegue nem mesmo discutir o assunto. Talvez ele mesmo não compreenda inteiramente; mas tudo o que ele sabe é que a altura dela o perturba de tal maneira, que só mesmo cancelando o casamento.

A princesa, de sua parte, não consegue entender o motivo da sua partida, e quer esclarecer as coisas. Corre então ao seu amigo mago e pergunta se ele pode torná-la um pouco mais baixa.

O mago diz que não, ele não tem poder para fazer isto, mas se ela quiser, ele pode torná-la um pouco mais gorda ou quem sabe um pouco mais magra, ou até se ela quiser, ele pode transformá-la num corvo, mas ele nada pode fazer em relação à sua altura. Desapontada e deprimida, a princesa vai para a cama. Neste meio tempo, o rei e a rainha, pais do príncipe, o convencem a reconsiderar sua decisão, e dar outra chance ao casamento. Ele concorda e retorna ao castelo, onde princesa adoece e jaz, sem forças, em seu quarto. Ao lado da cama da princesa, o príncipe naturalmente fica maior do que ela, e isso realimenta sua antiga atração pela jovem.

O príncipe percebe que a princesa ficou muito pálida, de ficar tanto tempo dentro de casa e se oferece para levá-la para tomar um pouco de ar fresco.

Ele a convida para um passeio a cavalo, pois num cavalo, ou numa cadeira, a princesa não fica mais alta do que ele. Durante o passeio, porém, o cavalo da princesa tropeça e a atira no chão; e quando o príncipe a ajuda a levantar-se, mais uma vez, é lembrado que a princesa é muito mais alta do que ele…

A princesa percebe o desprazer em seu rosto e imediatamente cai ao chão, contorcendo-se e gritando:

_ Aí, minhas pernas, eu não consigo pisar!

O príncipe então a levanta e a carrega de volta ao quarto com o peito estufado de orgulho masculino. Como ela não pode andar, ele mais vez se sente mais alto do que ela.

A princesa passa os dias que se seguem na cama se recuperando. Só que, à medida que o tempo passa, ela vai ficando cada vez mais entediada: para uma jovem cheia de energia e talento, ficar presa no quarto o dia inteiro não é exatamente a coisa mais agradável do mundo.

Como ficava ociosa quase o tempo todo, a princesa começou a treinar fazendo comentários cada vez mais divertidos e espirituosos. Tudo o que ela queria era agradar o príncipe, mas um dia ele se vira para ela, após um destes comentários, particularmente sutis e inteligentes, e lhe diz, de forma cortante:

_ Você nunca ouviu falar que mulheres, devem ser vistas, e não ouvidas?

A princesa mergulha em seus pensamentos. Ela não entendeu muito bem o comentário, mas ela percebeu que era alguma coisa assim, parecida com ser alta demais… Assim ela percebe que o príncipe a preferia sentada e não de pé, e que ele a preferia calada e não falando. Ele era muito mais feliz quando ela ouvia e muito distante quando ela falava.

Daí ela decide deixar de falar e mais uma vez sacrifica o seu orgulho para contentar o príncipe. Passa a comunicar seus desejos numa tábua de escrever, tanto a ele quanto aos serviçais do palácio; porém tarde da noite, quando não havia mais ninguém para vê-la, ela satisfaz sua necessidade de conversas inteligentes, falando com o seu animal.

Só que o príncipe descobre e este arranjo está muito longe de satisfaze-lo. Ele se aborrece com o afeto que a princesa dedica ao animal. O cachorro percebe que seus dias estão contados e diz isso a princesa.

Quando ela diz que não sabe o que faria sem ele o animal responde:

_ Pois é bom você se acostumar. O príncipe não gosta nem um pouco de mim. E assim dizendo, ele cai pesadamente no chão e morre, sacrificando-se pela felicidade da princesa. Tomada pela tristeza, a jovem fica inconsolável.

Enrola o fiel companheiro nas dobras do seu vestido e vai enterrá-lo. No caminho da área do cemitério, é interceptada pelo príncipe, que comenta, insensivelmente:

_ Eu pensei que você já tivesse se livrado dessa coisa há semanas!

_ O que você chama de “essa coisa”? – diz a princesa_ Morreu para me poupar da dor. Eu pretendo enterrá-lo com a honra que merece.

O príncipe se surpreende ao ouvir a princesa falando e pergunta:

_Ué? Desde quando você está falando de novo?

_Ah! A princesa sorri, olha-o de cima a baixo_ Eu estou falando para melhor lhe dizer adeus. Então adeus. ADEUS! ADEUS!

Pois sim, talvez a história pudesse terminar aqui, mas a rainha mãe, fica sabendo do que aconteceu, e fica muito agitada.

_ E as alianças, os exércitos, as terras? Ah, minha querida, venha cá! Agora você precisa que fez uma bela confusão. Temos que cuidar de nossas alianças. Tenho certeza de que tem consciência das complexas negociações que você acaba de arruinar! Seu dever como princesa…

Mas a princesa não deixa que sua mãe termine. E responde:

_ Meu dever como princesa não é necessariamente sacrificar minha vida toda. Eu tenho outros deveres: uma princesa diz o que pensa. Uma princesa se ergue sobre seus próprios pés. Uma princesa fica ereta. E não trai aqueles que a amam.

A rainha mãe nada responde, mas certamente começa a pensar um pouco sobre o assunto. Nesta noite a princesa foge do castelo para ir visitar o tumulo do seu amado cão. De pé ao lado da sepultura, ela pensa em todas as coisas das quais desistiu por amor. E pensa em voz alta:

_Como nós, mulheres, somos tolas!… Por causa de um estúpido príncipe, deixei meu sábio companheiro morrer. _ ela então coloca uma rosa branca no tumulo e a rega, com um regador de prata.

No caminho de volta ao portão do castelo, ela ouve um barulho no escuro; olha para trás e vê um elegante cavaleiro. Um jovem de cabelos cor de longos e louros, feições aristocráticas; ela sente que ele pode ser um príncipe. E ela nota que ele tem uma bandeira nas mãos que mostra uma rosa em um fundo preto.

A princesa pede que ele traga a bandeira mais para perto dela, para que ela possa vê-la melhor. Ele traz a bandeira até bem perto do seu rosto.

_Me lembra morte…_ suspira ela

_ Não, não. É o renascimento, e muitas vezes , uma morte é necessária…

Ele então desmonta do seu cavalo e se inclina para beijar a mão da princesa. Enquanto isto ela sussurra uma pequena oração, esperando que ele muito mais alto que ela, só que sua oração não foi atendida. Na verdade ele era bem menor. A princesa endireita a sua espinha e pensa: Seja o que Deus quiser…

Mas, para sua surpresa o príncipe, (tão baixinho que ele era) olha para cima e diz:

_ Ah! Mas que prazer! Admirar uma mulher tão bela como você.

A princesa cora, fica muito envergonhada e estende a mão, o elegante príncipe sorri. Em seguida os dois seguem juntos para o castelo.

 

“A princesa que era alta demais”, adaptação do conto americano “A princesa que caminhava com seus próprios pés”. Relembra e alerta para a profunda necessidade do principio feminino ser preservado na sua inteireza, sem diminuir-se, dobrar-se ou encolher-se para atender a qualquer imperativo ou interdição do mundo patriarcal, pois mantendo-se pleno em sua dignidade, em algum momento receberá o que lhe é de direito.

Reencantamentos para liberar histórias – Org. Angela Philippini.

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Nos trilhos da vida

“Aquilo que você busca também está buscando você.”

Esta última semana foi ótima. No sábado retrasado, tive um aborrecimento enorme, mas coloquei todas minhas mágoas para fora. Momento de lavar roupa suja que estava acumulada mais de 8 meses.

Por um conselho de uma amiga, tomei uma atitude na quarta-feira de me expor e tentar consertar o estrago causado com esta briga. Esta atitude, falar o que sinto, colaborou para esta felicidade de dever cumprido e lição aprendida. Sabedoria pura.

Domingo só veio para consolidar esta pequena grande decisão de quarta. Página virada.

O bom de extravasar, é que agora, tive meu outro momento de irritação e consegui me controlar. Vieram me contar que atual mulher do meu ex-marido colocou no Facebook que está num relacionamento sério com ele na mesma época que estava comigo. Não tem vergonha, não? Mas vai lá, entreguei um marido “maravilhoso” para ela. Felicidades ao casal e o bebê que está a caminho.

Sonhei no feriadão que estava pulando trilhos, por isso a imagem escolhida nesta postagem. A vida que está andando no ritmo de um trem e como deve ser. Fiquei feliz.

Conversando com minha tia no sábado, descobri uma coincidência. Minha avó portuguesa saiu de sua terra com 30 anos, minha tia pisou no solo lusitano pela primeira vez com 30 anos e eu também. Dizem que nós três somos muito parecidas com a mesma idade. Com minha tia, sou mesmo. Já com minha avó, não tem como saber, pois não tem fotos e ela já é falecida.

E esta frase do começo do post resume bem o que tenho pensado meu últimos dias. O que estou buscando também está a minha procura.

Eu sou barraqueira, e daí?

A pessoa faz terapia há anos, para tentar manter o equilíbrio. Aprende sobre controlar impulsos e de como ser assertiva. Mas este fds, joguei toda minha terapia para o espaço e dei vazão ao meu lado mais agressivo.

E sinceramente, não me arrependo. Passei meu último ano, fazendo a linha fina e elegante. As pessoas fizeram poucas e boas e fui levando num equilíbrio, como se tivesse acima daquilo. Achei que assim, me afastando destas pessoas, tudo ia acabar. Mas como um saco de pancada, continuei tomando. Cada dia, e a mágoa estava lá dentro, guardada.

A gota d´água foi por uma bobagem. Mas confesso que estava sentindo falta desse meu lado. De berrar, gritar, socar, empurrar. Como estava precisando berrar. Chorei tantos meses, quietinha, sem ninguém ver. E agora, minhas emoções transbordaram.

Não foi por impulso, sabia o que estava fazendo. Poderia ter evitado, mas não quis. Chegou no meu limite.

 

Tudo que precisava ouvir…

Tenho andado pensativa. Aí, ontem, recebi uma comentário aqui no blog sobre meu momento.

“De acordo com a filosofia do Livro das Mutações, O I Ching, a felicidade é um estado de espírito alcançado quando passamos a valorizar aquilo que temos e controlamos a nossa ansiedade em relação àquilo que não temos”

Obrigada, Melissa.