Muitos tons de cinza (coluna do Goldin na Revista de Domingo)

“Tenho 44 anos, sou separada e independente. Vivo com conforto com minha filha adolescente. Infeliz após a separação, conheci Paulo (45), me encantou seu charme e, no segundo encontro me disse que era casado, com um filho. Relutei em me envolver mais acabei me entregando de corpo e alma. Paulo limitado financeiramente, é de uma classe social inferior a minha. É inteligente, interessante e temos muitas afinidades, porem não tem coragem de abandonar o lar. Nosso relacionamento já dura dois anos, eu apaixonada é ele também. Falamos-nos e vemos com muita frequência, o sexo é maravilhoso, ainda que eu banque os programas, nunca me senti explorada, me compensa com seu carinho e me ajudando no que pode. Sinto ciúmes, detesto dividi-lo e ele também sofre por ter uma vida dupla. Tentamos nos afastar, e não conseguimos. Será que não me ama o suficiente pra mudar sua vida? Confunde amor com conforto? Estou perdendo tempo? Ele me faz sentir viva e mulher. Preciso colocar um fim?
Alice”

Algumas cartas são verdadeiros ensaios autorais, porém, quando seu tamanho excede o formato da coluna, é preciso resumi-las. Desta vez, quando fiz isso, percebi que a pergunta original da Alice tinha se modificado. Depois de retirar algumas frases do texto, acabou dando a impressão de ser uma história padrão, idêntica a outras, onde Alice aparece como refém de um homem casado, com menos recursos e cultura, que a aproveita, tanto no aspecto material, quanto sexual…

É verdade que não posso afirmar o contrário, mas em seu bem articulado texto, não dá essa impressão, não parece ingênua, nem deslumbrada e descreve Paulo como um homem que a ama e, apesar de comprometido, parece correto e assumindo sua responsabilidade na história, se esforçando para compensar suas limitações. 

As mulheres que se relacionam com homens casados produzem opiniões bastante radicais, a maioria considera a situação uma roubada, sem hesitar, aconselhariam a Alice a terminar o caso imediatamente e procurar uma situação afetiva mais favorável.

Outras opiniões, talvez em minoria, se identificariam com seus sentimentos e limitações e, a partir desse lugar, afirmarão que assim que se amarem de verdade e se assumirem culpas e privações, as histórias valeriam a pena serem vividas.

De minha parte, tento ser neutro, por considerar que é a única forma de ajudar a Alice. Ambos compartilham uma história de alternância entre prazeres intensos e privações severas. Alice, entrelinhas, parece sentir um secreto prazer em transgredir é, no sentido oposto, consome horas em reflexões sobre o valor emocional e ético da relação. Paulo, por sua vez, se por um lado parece amá-la, e consciente das vantagens materiais, porém também intui que esta aventura pode levá-lo ao divórcio, ameaçando seriamente sua frágil estabilidade financeira. Condenar ou absolver é fácil, mas não é o caso, já que a própria Alice se encarrega de fazer isso. Por esse motivo, entre o branco convencional e o preto pecaminoso, esta história apresenta vários tons de cinza, com alternâncias claras e escuras e é nesse lugar que, estrategicamente, me coloco.

Considero que apoiar a relação não atenuaria suas dificuldades e o contrário, exigir a ruptura, não modificaria seus sentimentos em relação ao Paulo. Por isso, deixo a Alice tomar sua própria decisão. A seu favor pesa a clara e lúcida consciência das suas condições atuais, bastante sofridas, e a certeza de uma ruptura inevitável. Certamente esse momento não os pegará de surpresa, por enquanto é um amor fora do espaço e do tempo, sem passado, nem futuro… Será esse seu maior encanto? Vivem uma história entre parênteses, com prazeres e dúvidas, dentro de um cenário sem relógio nem calendário e é precisamente nesse lugar que funciona o amor perfeito, passional, juvenil e irresponsável: um concentrado de sentimentos puros. Por outro lado, quando chegar o dia “D” (do desembarque) qualidades e defeitos retroativos cairão sobre seus protagonistas como os cartões de crédito, com suas inexoráveis faturas, que primeiro se usam e depois se pagam. Se nesse dia a paixão continuar viva, será uma dor intensa e em caso de decepção, os sentimentos serão de hostilidade.

E, por fim, já sem neutralidade, direi à Alice que as paixões humanas sempre são dignas e ultrapassam de longe a clássica e simplória divisão entre o branco oficial e o preto subversivo. Em síntese, não ha almoço grátis nem amores irresponsáveis. No entanto, até o dia “D” chegar, a vida continuará e Alice e Paulo poderão estender o parêntese entre “começo” e “fim”. Nada tão diferente do que todo mundo faz: viver, da melhor maneira possível, no período, sempre breve, que separa o nascimento da morte.

Alberto Goldin

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s