Quero minha estrelinha dourada* :-D

_estrelaEm conversa com uma amiga falei que sinto falta de ser elogiada pelas minhas últimas posturas e conquistas. Ela soltou, mas precisa?

Precisar, não precisa. Mas queria compartilhar com alguém que também vibre com a minha alegria de estar me tornando uma melhor versão de mim mesma. Tenho um logo caminho a percorrer ainda, mas cheguei num patamar que queria tanto há uns anos atrás.

Dizer não a todas más tentações.

Voltei a minha rotina de academia e dieta, comecei uma pós-graduação e me afastei de problemas repetidos.

Consciência tranquila de ter voltado ao meu eu focado nos objetivos e firme nas decisões.

Poderia ignorar uma mudança que também está sendo muito importante na minha vida, a busca pela esperança por meio da fé. Eu que nunca fui católica, tenho ido todos os domingos na missa. A primeira vez que entrei neste ano numa Igreja passei por um teste daqueles para fugir correndo e nunca mais voltar. Mas resisti e voltei.

Não vou afirmar que tudo sempre é fácil. Mudar é um processo e o antigo está impresso na gente. É bem normal recorrer ao velho conhecido ou sentir falta dos seus maiores prazeres. Mas depois que decidi que quero e vou mudar, estou abrindo mão e indo para um novo caminho de paz, equilíbrio, sabedoria e felicidade.

*Quando entrei na escolinha, naquelas primeiras classes antes da alfabetização, o aluno que tivesse o melhor comportamento ganhava a disputada estrelinha dourada.

Todo carnaval tem seu fim

Andava cansada destas postagens tristes aqui do blog, mas era meu momento que não estava tão festivo. Mas o carnaval veio para me dar uma carga de felicidade.

O que fiz? Nada demais. Não tenho nenhum bafão para contar. Mas me diverti muito com meus amigos e fiz vários outros. Todos com a mesma vibe de pular os 5 dias com muita animação.

Desfile do bloco Céu na Terra, na Praça do Curvelo, em Santa Teresa - Marcos Michael
Desfile do bloco Céu na Terra, na Praça do Curvelo, em Santa Teresa – Marcos Michael

A minha fantasia de rainha, quase saiu sem mim, foi a mais vista pelas ruas do Rio. Mas tive meu momento líder do BBB e cigana. A última sonhei um dia antes que precisava separar um baralho para compor o look, só que não tinha nenhum acessório de cigana em casa. Chego na casa de uma amiga, ela acaba me oferecendo a roupa sem eu pedir. Depois do sonho, nem pensei em recusar, né?

Foram 10 blocos, no qual destaco: Me beija que sou cineasta, Boi tatá (com Sassaricando), Carioca da Gema, Boi Tolo e Céu na Terra. Os meus preferidos de 2013.

Marcos Michael
Marcos Michael

Dois dias de Sambódromo, um fui apenas para assistir e outro desfilei. Minha fantasia de portuguesa era linda, nem combinava com a pobreza da minha escola. Me entreguei de corpo e alma na avenida e até apareci na telinha da globo.

Após toda tristeza do carnaval passado, este veio para me lembrar que pequenas coisas podem ser grandes quando estamos do lado de pessoas legais e com objetivos parecidos com os seus. Diversão, diversão e diversão. Sem aloprar, sem ter um bêbado chato ou um casal que não para de brigar.

Carnaval 2013 vai deixar saudades e foi resumido pela minha mãe como o ano da consagração. No qual me tornei soberana absoluta da minha vida.

Arlequim dear, cadê você?

pierroecolombinaFinalmente chegou a melhor época do ano, o Carnaval. Apesar de afastada, amo muito tudo isso. Não consigo ficar indiferente quando escuto um baticundum de uma bateria. Arrepia até a alma.

Desfilarei na minha escola de coração, a minha fantasia é uma portuguesa estilizada metaleira, representando o Rock in Rio Lisboa, enredo da Mocidade. Irei nos meus bloquinhos e encontrarei o arlequim. Quero alegria, nada de Pierrot chorando. O coração do arlequim é todo meu.

 

A menina quebrada

Copiei do blog da Renata que pegou o texto da Eliane Brum na revista Época.

A menina quebrada

Uma carta para Catarina, que descobriu que até as crianças quebram

ELIANE BRUM

201010-espelho

Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses, cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina…. A menina…. Quebrou”.

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina… A menina…” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou…” Catarina repetia. “A menina… quebrou.”

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam.

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui dormir envergonhada.

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia, você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E, se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar. Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará.

Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa. E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina, não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas, o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta, Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento, se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu espero que você possa nos amar mais por isso.

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos, você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa, com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”.

Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só tinha uma. Sabe o que era, Catarina?

Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados, o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos e a dizer: “A menina… quebrou”. Ou: “Eu… quebrei”. E talvez você me pergunte como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer, Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”.