A síndrome do parque de diversões

Natália Klein do blog Adorável Psicose

Quando eu tinha uns três ou quatro anos, minha mãe me levou pela primeira vez a um parque de diversões. Não era lá um grande parque, mas supõe-se que as crianças têm essa vantagem de ser imaginativas e de se contentar com bobagens. Na verdade, as adultas também. Vira e mexe vejo amiga contando que conheceu um cara ótimo, que esperou um táxi com ela na rua e até mandou mensagem no dia seguinte. Daquelas criptografadas, do tipo “bom t v, bj p vc”. Quer dizer, o cara não se dá nem ao trabalho de escrever a palavra inteira, o que que custa escrever a palavra inteira?! É o nosso primeiro encontro, inferno, escreva a droga da palavra inteira!

De todo modo, minha mãe conta que nunca esqueceu minha reação quando fui àquele parque. Ela diz que durante o passeio todo, eu estava sempre olhando para o próximo brinquedo, nunca para o brinquedo em que a gente estava. Como se eu estivesse o tempo inteiro buscando algo de fora, algo distante. Como se eu fosse incapaz de aproveitar o que estava bem ali, diante dos meus olhos, naquele momento. Ok, ela não disse isso. Mas me fez pensar.

Quando saí da casa da minha mãe e fui para o meu primeiro apartamento, tudo era novo e empolgante. Móveis para comprar, decoração para fazer, cortinas, tapetes, cacarecos diversos… e quando a casa finalmente ficou do jeito que eu queria, do jeito que eu sempre quis que a minha casa fosse, eu comecei a ficar inquieta. Passei sonhar com o meu próximo apartamento, aquele que ainda não posso bancar, com varanda, flores na varanda – mas tem que ser aquela varanda que só se vê em filmes europeus –, um animal de estimação, talvez um closet gigante. Ah, como seria ótimo ter um closet gigante…

E em vez de relaxar e desfrutar da minha conquista, eu resolvi olhar para o próximo brinquedo, tal como aquela garotinha de três ou quatro anos, imaginativa. A diferença é que agora, eu não me contento mais com qualquer bobagem.

Apesar de (ainda) não ter aquele closet gigante dos sonhos, nunca estive tão orgulhosa do meu guarda-roupa. Entenda que eu fui, por muitos anos, uma adolescente estranha, com roupas estranhas e nenhum talento para me produzir. Minha única referência de maquiagem era aquela Barbie da cabeça gigante, e eu lembro que quanto mais sombra azul e batom rosa eu tacava na coitada, melhor maquiadora eu me considerava.
Eu comprava revistas de moda e pensava com todas as forças que um dia queria ser como uma daquelas mulheres. A fase de querer ser igual às modelos esquálidas felizmente já passou, pois aprendi a gostar do meu corpo como ele é. Ok, mentira. Eu continuo querendo ser exatamente como aquelas modelos esquálidas, mesmo compreendendo perfeitamente a função do Photoshop.

Hoje eu não me sinto mais aquela garota estranha e deslocada. Mas, ainda assim… maldito parque de diversões e a obsessão pelo próximo brinquedo. Outro dia mesmo, quase gastei meu salário inteiro comprando uma bolsa Prada. Por sorte, o banco bloqueou meu cartão de crédito, sob a alegação de que eu estava realizando uma compra fora do meu perfil. Sábio banco. Mal sabia ele das indagações que aquele procedimento padrão iria despertar em mim.

É inegável que isso tudo está ligado a uma certa tendência autodestrutiva. Não me leve a mal. Assim como você e o Will Smith, eu também estou à procura da felicidade. Mas tem dias que esse complexo do parque de diversões ataca com força. E em vez de aproveitar o meu brinquedo, eu me vejo olhando para os lados, inquieta, buscando sei lá o quê.

Quando eu odiava meu trabalho e saía todas as noites, eu reclamava que as coisas não estavam acontecendo para mim. Quando as coisas finalmente aconteceram para mim e eu me enchi de trabalho, comecei a reclamar que não tinha mais tempo de sair e conhecer caras interessantes. Quando conhecia caras interessantes e eles não queriam nada sério comigo, eu reclamava que ninguém queria nada sério comigo e que eu iria ficar sozinha pra sempre. Quando eu conheci um cara interessante que quis algo sério comigo, eu comecei a reclamar que não sobrava mais tempo pra ficar sozinha.

Por que raios isso acontece? Por que nunca estamos plenamente satisfeitos com o que temos? A inquietude é saudável até certo ponto, afinal, ter objetivos e vontades é o que nos move. Mas o que fazer quando estamos constantemente nos questionando se o que temos é realmente o melhor que podemos ter? E por que aquilo que não temos só parece melhor até o momento em que passamos a tê-lo? Como aquela bolsa Prada que eu nunca comprei. Será que na minha casa, dentro do meu guarda-roupa modesto, que não é um closet gigante dos sonhos, aquela bolsa seria tão linda, vermelha e brilhante? Provavelmente sim. A quem estou enganando, eu quero aquela bolsa agora.

Outro dia, entrei em algum tipo de crise temporária, mais conhecida como “modo autossabotagem on”, e dispensei meu namorado, um cara legal de quem eu realmente gosto, para ir a uma festa à la solteira com os amigos. Só que os amigos também acabaram conhecendo caras legais. E eu fiquei sozinha.

A ironia da coisa é que eu passei anos – eu disse anos – reclamando incessantemente sobre como eu queria encontrar alguém. Não que eu tenha problemas em lidar com a minha própria companhia, muito pelo contrário. Tem noites em que tudo o que eu quero é ficar sozinha em casa, vendo filme e bebendo vinho. Mas a perspectiva da solidão eterna me assusta. E quando eu finalmente encontro alguém legal que realmente gosta de mim, eu me apavoro e me coloco numa situação patética de solidão.
Lá estava eu, absolutamente sozinha. Por opção, mas uma opção mal feita, pelos motivos errados. Eu escolhi o outro brinquedo no parque de diversões e tratei meu namorado como uma bolsa Prada esquecida no armário.

Mas eu ainda estou aprendendo. Com sorte, vou saber apreciar uma boa volta na Roda-Gigante – apesar de achar a Roda-Gigante um brinquedo bobo e sem propósito, além de ter medo de altura. Com o tempo, a gente acaba conhecendo bem o parque que tem em volta e aprende quais são os brinquedos que valem a entrada. Sábios são meu banco e minha mãe, que enxergam muito além daquilo que eu mesma sei sobre mim.

 (Texto escrito para a revista LOLA, publicado na edição de nov/12)

19 anos de novo

Então fui assistir o filme Faroeste Caboclo no fim de semana e na fila da pipoca encontrei com um menino que dei uns beijos quando tinha 19 anos.

Esta idade está me perseguindo, só pode.

Não vejo esta criatura desde esta época.

Eu o conheci num lugar alternativo que frequentava ao lado da minha casa nesta fase de transição para vida adulta.

Quando avistei aquele homem todo de preto, cabeludo, alto, bem branco, de cabelos bem escuros e olhos azuis, cismei que o queria de qq jeito. E atingi meu alvo.

Sempre ia acompanhada de algum amigo da faculdade (provavelmente Mauro estava nesse dia e kkkkkkkk), mas não esqueço quando coloquei na cabeça que não passaria daquela noite minha conquista.

Peguei uma caneca de vinho e fiquei encarando, esperando uma atitude. Os amigos o mostraram, ele agiu e saímos naquela noite e mais uma vez.

No segundo encontro fomos num bar tosco, conversamos sobre rock, nights e me diverti muito. Descobri q ele já tinha sido capa, quando era bebê, da revista Pais e Filhos.

Fazíamos um casal bonito, com minha roupa preta, meus cabelos de vermelho intenso e batom preto e ele com aquele charme.

Gostei muito desta fase da minha vida, tenho orgulho dela, mas passou. Como disse na última postagem, me reconheço mais no espelho de agora.

O que sou hoje tem muito das escolhas que fiz com 19 anos. Quando resolvi viver minha vida de forma livre e intensa, pela experiência das pessoas que passaram pela minha vida e trouxeram este ensinamento.

Este garoto que nem sequer lembro o nome é uma lembrança de uma vida que invejava de liberdade que ainda não tinha. Ele não foi o primeiro a mostrar isso, foi apenas mais um.

Engraçado que achava a vida dele o máximo. Hoje não trocamos uma palavra porém tive agonia de vê-lo com o mesmo cabelo grande e roupa preta. Para mim simbolizava muito.

Coincidentemente, também estava toda de preto. Mas minhas madeixas ñ são mais vermelhas, meus batons não são negros e eu não tenho mais 19.

Tanta coisa já fiz, conquistei esta liberdade maluca que sempre quis, vivi um bocado.

Viajei por aí, para vários destinos, alguns exóticos, conversei com pessoas com vidas tão diferentes da minha, acampei, morei sozinha, casei, tranquei uma faculdade e virei jornalista, estive em momentos históricos, separei, sofri, tive outras dores terríveis, subi, caí, levantei, amei intensamente, fudi com a vida dos outros e o castigo veio a galope, conquistei coisas que nem imaginava mas almejava.

E ele apesar de calvo, continuava de roupa preta e cabelos compridos…

Muletas

Postei este texto no meu blog anterior no ano de 2008. Resolvi republicar por estar tão atual e por estar dando meus primeiros passos sem muletas.

Muletas
Clarice Lispector

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.

E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar…”